o silêncio enfático da noite — quando chega em seu ápice — é exatamente disso que um coração apaixonado precisa.
está entranhado na essência teatral.
quando esse coração vai desacelerar? decerto, nunca.

essa intensidade nunca irá cessar.

tem esse perfume que devora tudo.
e a madrugada decisivamente tem seu charme especial.
cada insignificância contém delicadeza
e é aí que mora o escândalo
a angústia
e tudo que é imoral.

para que dormir,
se posso admirar a chama dessa vela?
para que fechar meus olhos agora,
se posso derramar lágrimas fortuitamente?

tão sensibilizada
pelo que é
taciturno.
não durmo
investigo prateleiras e paixões.
sem me interessar pelo amanhã.

nesse sigilo profundo,
me entrego ao mistério de ser só,
deslumbro.

tenho ânsia por romance e pelos versos que nunca foram escritos.

eu grito por socorro, quase que eu morro, de tanto sentimentalismo.

na madrugada tudo é esquisito.

o mundo descansa e eu fico.

não custa nada ficar,

bobo é quem não fica.

eu fico.

junto com os vagalumes extintos e com os riscos

junto com os sonhos não realizados e com os discos esquecidos.

essa velhice do meu coração nunca ajuda,

coleciono antiguidades na nuca

e tenho esperança que tudo se resolva,

mas, amanhã nada muda.

acho que estou desvanecendo na neblina dos inadequados.

enquanto todos estão satisfeitos,

os meus desconcertos sempre pedem por mais.

Fonte da imagem: Filme Betty blue (1986)

Escrever não é um processo tão fácil quanto parece. Escrever é aguçar a sensibilidade e aprimorar as próprias concepções. É estimular a linguagem com constância. Não é sentar no sofá e esperar as ideias chegarem aleatoriamente. É um processo laborioso que requer coragem.

A percepção dos sentimentos, em uma agudeza…

talvez as calçadas sejam construídas especialmente para conversas extensas que jamais serão esquecidas, e talvez as luzes artificiais da cidade sejam o cenário romântico da atualidade.

já não temos tantas estrelas na vida urbana

mas temos a oportunidade de enxergar estrelas em olhares.

Tudo que desabrocha dentro da minha cabeça, como pétalas arroxeadas, parece deleitavelmente palpável. Nesses instantes em que as vozes se calam, consigo alcançar minhas memórias de forma súbita e tocá-las incansavelmente. É como se nada mais importasse, além da sensação inédita que sou capaz de permear. Nada e ninguém pode…

Julia Coelho

Escritora e poeta. Autora de dois livros de poesia.

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